E como fazia calor em janeiro, o banco quebrado, as roupas espalhadas, a poeira grudada no ventilador, a música jorrando pelo toca fitas velho, velho de mais. Longe de mais.
Alguma coisa tinha ficado perdida na bagunça do quarto.
Não.
Qualquer coisa perdida tinha bagunçado de mais o quarto.
Besteira lembrar agora, melhor guardar pra usar mais tarde, umas fotos nas estantes, uns textos pela metade. Um filete de luz perdido entre o pano dividia a parede em duas, ele cruzava a linha com os dedos.
Besteira ficar parado; tão bom olhar as sombras se encolhendo no teto; besteira ficar parado; uma parede pintada de azul marinho viria bem a calhar;besteira; umas ferraduras na porta, quem sabe, besteira.
O dia já ia pelo meio. A vida também...
Levantou do chão castanho, tropeçou entre os papéis, até a janela, deixou cair pouca coisa dos bolsos, um relógio parado, com seis ponteiros reserva.
Olhou mais uma vez a luz fina e esperou a vista queimar... como fazia calor em janeiro.
Então ele foi.
Pela mesma janela que tinha entrado, sabe lá quando, foi.
Os amigos ainda recebem de vez em quando as cartas, se perguntam se um dia ele volta.